quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Simplesmente horrível: informação ou desinformação?

Esta é uma daquelas notícias que apetece dizer sem comentários. Mas tecerei alguns mais abaixo. Leiam primeiro a noticia abaixo e se quiserem ler da fonte original podem fazer aqui.

Cidadãos desconhecem objectivos da Assembleias Provinciais
(08/10/2007)
Há escassos meses para a realização das primeiras eleições para as Assembleias Provinciais e há duas semanas após o início do recenseamento eleitoral, prevalece, entre os cidadãos da cidade de Maputo, um défice de informação sobre os objectivos deste escrutínio.

Numa ronda feita pela nossa equipa de reportagem, este domingo, constatámos que poucos são os cidadãos que têm conhecimento dos objectivos das Assembleias Provinciais, ou seja, de quem será eleito e do que irão fazer essas assembleias e que mudanças política, económica e social irão trazer para o país.

Dos quatro cidadãos interpelados no acto do recenseamento eleitoral apenas um foi ao encontro dos objectivos preconizados por estas eleições ao afirmar “que visa descentralizar o poder às províncias de forma que possam, por si, decidir sobre o seu destino”.

Por seu turno, outros dois, especificamente o segundo e o terceiro entrevistado, disseram que as eleições provinciais visam à escolha do Chefe do Estado e os presidentes dos conselhos municipais, sendo que o quarto disse desconhecer o sentido do pleito, marcado para 16 de Janeiro próximo.

Face a esta falta de informação generalizada, o Secretariado Técnico de Administração Eleitoral disse estar a desenvolver campanhas de sensibilização por meio de panfletos e boletins de informação.



É um excelente exemplo de um mau serviço jornalistico. Não precisamos dar muitas voltas para perceber isso.
Como pode o jornalista afirmar que os cidadãos da cidade de Maputo tem um défice de informação sobre objectivos das assembleias provinciais, partindo de uma amostra de quatro cidadãos? Éste número é representativo dos citadinos da cidade de Maputo? Ou a qualidade da amostra? Isto é, talvez tenha interpelado cidadãos que por alguma razão (Poder económico? Religioso? Político? Tudo junto?) são representativos dos citadinos de Maputo? E onde foram interpelados? No mesmo posto de recenseamento ou em locais diferentes?
Como podem estes quatro cidadãos constituir um número suficiente para generalizar?
É com estes jornalistas que contamos para levar informação à nossas casas? E aquele cidadão que por diversas razões não tem capacidades de questionar a informação que consome?


De olho...

As lógicas de apropriação dos espaços: urbano vs rural e cidade vs campo (II)


O que se pretende aqui é, desconstruir aquele discurso corrente que estabelece o campo como directa e exclusivamente associado ao rural a cidade directa e exclusivamente associada a cidade. Assim, parece automático que o facto de se viver na cidade (como espaço físico) induz as pessoas adquirirem um determinado modo de vida considerado específico desse espaço. Vemos assim, um equívoco que conduz a sobreposição daquilo que é a materialidade sobre o que constitui-se como efeito sociocultural.
Desconstruir este discurso, passa por discutir dicotomicamente os conceitos campo e cidade como realidades materiais, como a representação morfológica de um determinado território. Isto quer dizer que em relação aos conceitos campo e cidade, olhamos de forma descritiva para questões como densidade populacional, caracterizando-se a cidade com uma elevada densidade populacional ;a predominância do construido ou do não-construido, sendo que o campo é estruturado pelo não-construido (muito verde), e a cidade o contrário. Temos ainda que, se por um lado, a cidade caracteriza pela oposição entre espaços públicos e abertos a todos como as ruas, praças, jardins, etc e espaços privados de acesso reservado e limitado como casas ou clubes privados; a cidade é ainda o lugar onde diferentes grupos embora distintos uns dos outros coexistem entre si devido a partilha legitima de um mesmo território resultando na multiplicidade das inter-relações sociais. Por outro lado, o campo é um lugar visto como estando numa dependênca em relação a cidade que o controla em quase todas suas actividades, principalmente na produção agricola.
Entretanto, se a cidade e o campo são conceitos referentes a modos de territorialidade específicos, os conceitos rural e urbano são tipologias que evocam modos de vida. Estes modos de vida, vão estruturar-se em função do raio de acção da vida quotidiana dos indivíduos. Se em tempos (até a idade média) a vida quotidiana era estruturada em função da morfologia espacial. Mas com o desenvolvimento dos meios de transportes e de comunicação, o tempo desenraiza-se do espaço e a ligação directa morfologia espacial e efeitos sociais vai se diluir de tal modo que habitar no campo não significa necessariamente trabalhar na agricultura nem no campo. Enfim, as relações pessoais e espacialmente localizadas e caracterizadas pela proximidade física deixam de caracterizar o sisema de interacções e os modelos culturais.
De forma resumida, melhor, sendo curto o que isto quer dizer é que o modo de vida urbano pode caracterizar o campo assim como o modo de vida rural pode caracterizar a cidade.


Continue de olho que tem mais...

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

As lógicas de apropriação dos espaços: urbano/rural vs cidade/campo (I)


“No centro da abordagem está a prioridade dada à lógica de apropriação dos espaços já constituidos, articulada com a análise em termos de estrutura social. Daqui resulta a importância do debate das seguintes questões: a análise da cidade como uma entidade social e espacial especifica, sujeta a mudanças constantes na apropriação de espaços estratégicos e à procura de uma nova matriz de composição urbana, o confronto de modelos culturais que orientam tanto a tradição e a continuidade como o conflito e a mudança, as continuidades ou descontinuidades e ropturas do projecto e do controlo colectivo da comunidade consensual e do projecto individual de uma sociedade fragmentada pelas estratificações sociais e orientada pelo poder de opção e pela criatividade individual.”

A. Custódio Gonçalves in A Cidade: rumo a uma nova definição (Jean Rémy & Liliane Voyé)


Começemos o debate com uma notícia extraida do Diário de Moçambique (03/10/2007):

«Agastado com vendedores de Matendene: Comiche exorta munícipes a terem hábitos urbanos
O presidente do município de Maputo, Eneas Comiche, exortou aos munícipes no sentido de terem hábitos que vão de acordo com a cultura urbana.
O edil, que falava recentemente aos moradores de Matendene, mostrou-se agastado com a atitude dos vendedores locais por abandonarem as bancas no interior do mercado, para se instalarem fora, alegadamente em busca de movimento de clientes.
Mais de metade das 576 bancas do ercado de Matendene, construido há dois anos, está sem ninguém. Os seus ocupantes foram desaparecendo a pouco e pouco, fixando-se nas imediacões deste, facto que prejudica os que continuam a exercer a sua actividade de acordo com as normas municipais.
“Temos que saber valorizar aquilo que são as nossas conquistas. Vender em locais impróprios dá um ar muito feio. Não é assim que deve ser feito o nosso comércio”, apelou.
Na óptica do edil, a forma de valorizar os empreendimentos seria os comerciantes ocuparem as bancas dentro do mercado, pois foram concebidas para isso.
“Temos espaços no interior, mas há informações segundo as quais as bancas estão vazias. Os vendedores estão na porta para apanhar o primeiro cliente. Isso está errado” ─ vincou.
De acordo com Comiche, os munícipes é que devem contribuir para a correcção deste mal que ofusca de alguma forma a imagem do município.
Numa das ocasiões que o Diário de Moçambique entrevistou os comerciantes que otaram por fazer o negócio fora do mercado, alguns alegaram que no interior do mercado, vendiam muito pouco. Outros disseram-nos que ainda não lhes tinham sido atribuidas as bancas.
Por sua vez, a comissão dos vendedores disse que todos os que praticavam o comércio fora, tinham lugares no interior do estabelecimento, mas que preferem ficar naquele lugar numa concorrência desleal em relação aos outros quanto a posse de clientes.
O mercado Municipal de Matendene foi construido em 2004 e inaugurado em Junho de 2005, pelo presidente da República, Armando Guebuza.»




Lendo a notícia acima, podemos levantar discussões à vários níveis e com rumos diversificados. Podiamos or exemplo discutir se o cerne da questão são os comerciantes que preferem vender fora do mercado ou se são os consumidores que perferem comprar fora do mercado?
Eu darei um outro rumo a discussão. Vamos discutir “os hábitos e cultura urbana.” Ao ler o texto fiquei me questionando sobre o que o presidente do Município de Maputo considera de cultura urbana, ou melhor, o que o edil considera de falta de cultura urbana.
Será falta de cultura urbana o abandono de bancas nos interiores dos mercados para se intalar nas imediações dos mesmos? Será falta de cultura urbana o facto de os vendedores procurarem vender mais seus produtos abocanhando os clientes antes deste entrarem nos mercados? Ou é falta de cultura urbana “prejudicar” quem exerce suas actividades de acordo com as normas municipais?
O que é mesmo hábito ou cultura urbana?
Tomei a iniciativa de discutir o conceito de cultura urbana porque é muito comum fazermos uma salada quando se trata dos conceitos campo, cidade, rural e urbano.


Continue de olho que não fica por aqui